Tutorial para distrair a morte

 


Morrer é como bater o dedinho em alguma quina: quando menos se espera, acontece.

 

Quer dizer, mais ou menos.

 

Porque algumas quinas você já espera, sim. Sabe que estão ali, por mais que desvie, hora ou outra sairá pulando com um pé só pela casa, gritando e xingando. E tá tudo bem.

 

E obviamente não precisa morrer para chegar a esta conclusão (esse texto não é uma psicografia).

 

Se você lê essas linhas com certo tabu, virando os olhos para o autor (ih, que papo é esse de morte?) faça um esforço para não deixar o raciocínio morrer (com o perdão do trocadilho).

 

Mas voltando à quina.

 

O que quero dizer é que não precisa ficar pensando o tempo todo nela. Mas é importante não a esquecer. É melhor esperar a morte com os pulmões cheios de vida.

 

A consciência da nossa finitude nos incentiva a viver a eternidade que cabe no presente. Não se incomode tanto assim com a quina. Mas a deixe no lugar em que precisa ficar.

 

A ideia do cessar da existência, o fim de todos os milagres e a interrupção dos cursos não deveria nos assustar, muito menos chocar.

 

Mas indo pra outra quina do assunto, dizem que nunca esquecemos como andar de bicicleta. Acho que sobre o medo de morrer, é o contrário: a gente desaprende, sim. Ou vamos aceitando lentamente nossa sina ao longo da vida.

 

Talvez seja mais fácil com outros animais. Aliás, será que eles sabem que têm um prazo de validade? Enfim, isso é outro papo.

 

Fato é que quanto mais vivemos (e falo sobre viver, de fato, não meramente fazer um check-in chinfrim no mundo), menos temos tempo para morrer. Quanto mais plena nossa existência, mais temos consciência sobre sua raridade.

 

No combo de incômodos embutidos nesse papo desconfortável (mas necessário), também há o medo de ser esquecido, mas isso também é coisa para se esquecer.

 

Não há o que fazer para evitar que um dia a última recordação sobre nossa existência seja confundida com falsas memórias. Para impedir que nosso semblante seja desvanecido num sopro de oblívio, guardado até o fim dos tempos num relicário de lembranças perdidas.

 

Do alto dos meus vinte e tantos, esse fantasma não me apavora.

 

Mas devo dizer, sobretudo, que a ideia de morrer em vida me paralisa. A morte do entusiasmo, do brilho nos olhos, do propósito. Do olhar profundo, do ritmo no pulso, de respirar fundo.

  

Esse tipo de morte a gente pode distrair. Dessa quina, sim, a gente consegue se esquivar.

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3 Comentários

  1. (e falo sobre viver, de fato, não meramente fazer um check-in chinfrim na existência). Essa frase acabou comigo, estou de fato vivendo ou fazendo um chek-in chinfrim?

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  2. Caramba, forte o assunto, mas mais impactante ainda foram as construções dessas frases. Já deveriam estar em um livro impresso há tempos!

    Gostei, principalmente, da parte das memórias. Afinal temos um monte de romances completos que, na lápide, são resumidas em meras linhas. Não vale a pena ter medo de não ser lembrado. A memória material é um resumo infiel do nosso tempo de vida.

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  3. ...a ideia de morrer em vida me paralisa... Vc como sempre fazendo viajar longe com poucas palavras!!!

    Morrer vivo ou viver morto? Que texto Carlos!!!

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