Nem me lembro com exatidão quando setembro começou. Estava distraído demais percebendo a nuvem de fumaça que tomou de assalto o céu.
A propósito, estar distraído tem sido um estado permanente.
Afinal, tantas coisas têm acontecido que nem me atenho mais à percepção distorcida do tempo. No fim do dia, só quero estar intacto.
Intacto em termos, porque na tentativa de blindar algumas
coisas, acabo trincando outras, uma espécie de efeito colateral de existir.
Estava pensando em como é paradoxal essa questão temporal. A
despeito da rapidez que me engole com certo regurgitar, algumas coisas parecem ser delongadas.
Não é o caso da primavera.
A estação caracterizada pelas flores, vividez e cores
chegará inexoravelmente às 9h44 de domingo, ocupando o lugar mais importante da mesa,
ignorando a adversidade das condições.
Quando o caos nos fizer cais, cabe essa audácia de tomar as rédeas para cuspir os nós da garganta, silenciar os fantasmas, descortinar os véus das esquinas e cutucar os vespeiros.
Porque num súbito surto de consciência, já será verão e novamente deixaremos para trás velhas memórias empoeiradas, emaranhadas à esperança de que o céu não esteja mais em chamas.
Acordei e felizmente ainda é setembro. Decidi que no acúmulo de tudo que me traga sem trégua, vou devorar o agora sem esquecer que o hoje não espera.
Amanhã começa a primavera.


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