Crônicas do Apocalipse Climático, parte 1


Me incomodei quando o fio de fuligem escura caiu na piscina num domingo de sol a pino e mormaço máximo. Não pela situação em si, mas pelo efeito borboleta intrínseco: um sinal sutil de que o mundo está acabando.

Ironicamente, tenho visto pelo Bluesky (o único céu azul possível à essa altura do apocalipse) as aterradoras imagens das cortinas de fumaça pelo céu do país abençoado por deus e bonito por natureza, onde o pôr do sol tem filtros naturais de Mad Max.

Com uma mão na consciência e outra no joelho, cumpro a orientação de ingerir bastante líquido, mas não posso evitar fazer exercícios físicos durante os horários mais quentes, já que até as madrugadas estão batendo 30° C.

Sendo cria do cerrado, tenho ciência das mazelas desta estação crítica do ano. Mas a despeito da sazonalidade, tenho a impressão de estarmos nos acostumando à piora progressiva ano após ano, ao descaso escancarado e à aceitação da situação, que no meu ponto de vista, é o preço mais caro.

Estaríamos normalizando as chamas no paredão, os problemas respiratórios, o rasante de fumaça no chão? A insalubridade foi protocolada?

A crise ambiental é coletiva, mas também é individual, uma vez que ações que estão ao nosso alcance pessoal não são efetivas o bastante para evitar que a panela de pressão exploda. Espero a chuva do caju com a mesma expectativa que anseio por mudanças.

O que gritam as araras enquanto o céu se dissipa num oceano de cinzas?


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